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O Menino da Porteira é de Ouro Fino

(Jornal da Cidade - Inserida em 18/04/2008 - (17h23)

 
 

Com 10 metros de altura o monumento ao "Menino da Porteira" recebe os visitantes de braço aberto, no trevo principal da entrada de Ouro Fino

Resgatando memórias e estabelecendo verdades, o jornal Ouro Fino & Cia, em 30 de julho de 1998, investigou e procurou saber mais sobre a vida de Diogo Mulero, o conhecido Palmeira como era chamado no meio artístico.

Cantor, compositor e posteriormente diretor artístico sertanejo de uma das maiores gravadoras dos anos 50 a Chantecler, Palmeira revelou inúmeros artistas, entre eles, Irmãs Galvão, Rolando Boldrim, Francisco Petrônio, entre outros.

Naquela edição o diretor de redação do Ouro Fino & Cia, Dorival Junior e o repórter André Assis trouxeram à tona os depoimentos de Mário Zan e Jairo de Almeida Rodrigues, parceiros e amigos particulares de Diogo.

Confira a matéria escrita por André Assis. 

 

Parceiros de Diogo Mulero confirmam a origem do Menino da Porteira

 

Mário Zan e Jairo Rodrigues contam um pedaço da história da música sertaneja e de Ouro Fino

 

 
 

Mário Zan e o diretor do Jornal da Cidade, em São Paulo, após entrevista exclusiva concedida ao JC em Julho de 1988

 

 

Jairo de Almeida Rodrigues: convivência intensa com Diogo Mulero

André Assis - São Paulo, 1998


Ironia:
É dentro de um escritório no centro de São Paulo que reside a resposta para aquela que talvez a esfinge, o grande enigma de nossa cidade: a estrada de Ouro Fino em que era visto a Menino da Porteira era esta? A origem do Menino da Porteira está aqui?

Resposta: sim. A Ouro Fino da música é mesmo a sul-mineira, a nossa. A confirmação está nos depoimentos daqueles que, há cerca de 5 décadas, acompanharam a carreira de Diogo Muleiro. Seu nome está de certa maneira, conservando para a posteridade em nossa cidade. Há, no bairro Cata, uma rua com seu nome. Diogo Mulero, entretanto, era o nome pelo qual ele era menos divulgado. Na verdade, ele ficou nacionalmente conhecido como Palmeira, o primeiro intérprete de Menino da Porteira e outras canções famosas nos anos 40 e 50, como Boneca Cobiçada, Disco Voador, Couro de Boi entre outras inúmeras canções.

E não era para menos. “Palmeira era um gênio escondido” sentencia o sanfoneiro, hoje empresário. Mário Zan. Instalado em seu confortável escritório no Largo do Arouche, bairro central de São Paulo, Zan dirige hoje a gravadora Laser. Sua origem italiana é identificável através de um sotaque que ele ainda carrega, ao pronunciar palavras como “bombom”. Nascido na Itália, mas morando no Brasil desde os 4 anos de idade, ele não esquece dos primeiros tempos “o Palmeira estava precisando de um sanfoneiro, e eu tocava sanfona como solista. Nós começamos aqui em São Paulo, devagarinho” relembra. Note-se que boa parte das músicas hoje tocadas nas festas juninas foram compostas por Zan. A repercussão de sua obra era grande na época, dentro dos limites impostos pelos meios de comunicação ainda incipientes. O Brasil estava ainda descobrindo o rádio, e nem imaginava que em breve a televisão chegaria para acrescentar ao som a imagem. Uma revolução.

A música Menino da Porteira foi composta em 1954 pela dupla Teddy Vieira e Luizinho. O primeiro, natural de Itapetininga-SP, casou-se na cidade de Andradas onde passou a morar. Já o segundo, além de ter composto a canção, também foi o parceiro de Palmeira naquela  primeira gravação. Embora não tenha tido muito sucesso, a primeira gravação abriu o caminho para que outros intérpretes imortalizassem a figura do “Menino”.

A “explosão” nos veículos de comunicação de massa, porém, só veio a acontecer mesmo em 1977, quando Sérgio Reis gravou o Menino da Porteira, que também foi tema de um filme com o mesmo nome. O filme foi, para  os padrões de época, uma super produção. Ao contrário de algumas versões (tem até aquela que diz que o filme foi rodado na Ouro Fino de Goiás), as filmagens foram feitas nas cidades de Borborema e Tabatinga, no interior de São Paulo. Além de Sérgio Reis que faz o papel de um peão de boiadeiro, enquanto interpreta canções que mais tarde foram lançadas em disco, o elenco também contou com Jofre Soares, Maria Vianna, Jorge Karam, Davis Neto, Bentinho, Zé Coqueiro e Márcio Costa, garoto que encarnou o Menino da Porteira. Além destes uma equipe de mais de cem pessoas também participaram das gravações do filme.

O disco vendeu bem, e foi um dos alicerces da música sertaneja que hoje se faz no Brasil embora tivesse temática rural, o disco já teve sua divulgação feita em parte pela grande mídia, num embrião do que hoje fazem, em larga escala, Chitãozinho e Chororó, Zezé di Camargo e Luciano a então dupla Leandro e Leonardo.

 

Nota: Mário Zan faleceu em São Paulo, no dia 08 de novembro de 2006.

 

CAIPIRAS DO ASFALTO

Mas nem tudo foram rosas na história daquela canção. Zan é incisivo: “Sérgio Reis não queria gravar  o Menino da Porteira, achava caipira”, diz. Zan afirma que foi seu filho quem o convenceu a adotar o estilo sertanejo. Ressabiado, fala daqueles que ele classifica como “caipiras de asfalto”. “Os bobos do asfalto chegam na roça, olham prá laranja e perguntam: o que é esse negócio redondo ai? Eles não sabem” atesta. 

Outro que tem histórias de Diogo Mulero para contar é o empresário Jairo de Almeida Rodrigues. Aos 80 anos “caipira” de Jundiaí, como ele mesmo se define, Rodrigues dirige sua própria gravadora, também no centro da capital paulista. “Nós estamos falando da Ouro Fino do Sul de Minas. Lá é que aconteceu tudo isso”. A primeira gravação do Menino da Porteira foi feita por um oriundo de Ouro Fino” confirma, colocando ponto final na especulações. “O Teddy Vieira tinha uma grande capacidade de registrar acontecimentos no interior”  fala, convicto.  Jairo teve, juntamente com Palmeira um papel de destaque na história da indústria fonográfica  brasileira. Eles foram dois dos fundadores da gravadora Chantecler, que chegou na época a ser a maior do País.

Essa é apenas uma parte da história de Diogo Mulero. Naquele Brasil da década de 40, ele representou para a música popular o que talvez representem hoje os mais conhecidos compositores. Com um adicional extra: foi um dos pioneiros da música sertaneja no Brasil. Ou, como diz seu companheiro Mário Zan, música caipira. E o que veio depois é história.


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