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Queijo mineiro é patrimônio nacional

Conselho do Iphan aprova, em Belo Horizonte, por unanimidade, registro do modo artesanal de produção do laticínio, uma tradição mantida em Minas Gerais desde os tempos coloniais

(Jornal da Cidade - Inserida em 16/05/2008 - (16h37)

 
 

O processo de maturação exige cuidados especiais, como a higienização e a viragem diária dos produtos
Crédito Acervo Iphan/Divulgação

O queijo artesanal de Minas Gerais é agora patrimônio cultural do Brasil. Em reunião no Museu de Artes e Ofícios (MAO), em Belo Horizonte, o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou ontem, por unanimidade, o registro do modo de fazer o produto, que remonta aos tempos coloniais e tem suas origens na Serra da Estrela, na Região Central de Portugal. Com o reconhecimento, que recebeu muitas palmas, com a platéia e conselheiros de pé, o alimento poderá ganhar, além de visibilidade internacional, políticas específicas para garantir mais mercado e constante valorização. “Esta aclamação mostra a importância que o queijo artesanal tem. Ele agora é um produto cultural brasileiro e ganha, portanto, mais proteção”, afirmou o presidente do Iphan e do Conselho Consultivo, Luiz Fernando de Almeida. A decisão será encaminhada para homologação pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil.

De acordo com o veterinário e professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais José Newton Coelho Meneses, que coordenou a pesquisa e o dossiê interpretativo sobre o queijo, os principais centros produtores em Minas são as regiões do Serro (10 municípios), no Vale do Jequitinhonha, com oferta de 2,7 toneladas/ano; o Alto Paranaíba, ou Serra do Salitre (19 municípios), com 6,4t/ano; e a Serra da Canastra, no Centro-Oeste (7 municípios), com 4,4t/ano.
Ele explicou que os riscos sanitários são mínimos na elaboração do queijo, que tem cerca de 25 mil produtores no estado. As próximas pesquisas vão privilegiar as regiões de Araxá, no Alto Paranaíba, o Sul e o Norte mineiros. “A decisão de hoje é um divisor de águas nos 300 anos de história do setor”, afirmou.
A luta pelo registro cultural do queijo artesanal, que usa coalho, pingo (fermento) e leite cru na sua composição, surgiu em 2001 e, no ano seguinte, ganhou o reconhecimento do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha/MG). Na época, a elaboração estava ameaçada pelas leis sanitárias e pela obrigatoriedade de se usar o leite pasteurizado, como faz a indústria. Isso significaria uma pá de cal na comercialização de um bem secular e cultural. Com a definição de ontem, os produtores têm sua auto-estima elevada e acreditam em mais responsabilidade. “É um dia importante e estamos com boas expectativas, inclusive de vendas”, afirmou a integrante da Associação dos Amigos do Serro (Aaser) Maria Coeli Simões, que fez a proposta do registro em 2001, quando presidia a entidade. A iniciativa contou ainda com a participação da Associação dos Produtores Artesanais de Queijo do Serro.
Um dos passos importantes, na seqüência, será a adoção de um plano de salvaguardas, pelo Iphan, para dar melhores condições aos produtores. “Por meio das nossas regionais, vamos criar oficinas de boas práticas e avaliar as questões de mercado, preço e linhas de financiamento. O valor cultural agrega importância ao queijo. Ele é a identidade de Minas”, afirmou a gerente de Registro do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Ana Cláudia Lima e Alves.
Antes da decisão final, a conselheira Ângela Gutierrez fez a defesa do registro como bem imaterial. Ela destacou que o queijo artesanal tem a mesma importância “das montanhas de Minas, do espírito de liberdade e da habilidade política”. Ângela afirmou ainda que ele é sinônimo de mesa farta, da hospitalidade dos mineiros e do esmero na culinária, sendo a matéria-prima para bolos, broas e biscoitos. “Mais do que um laticínio, é uma herança cultural, um marco na nossa história”, disse.

 

Fonte: Gustavo Werneck/Jornal Estado de Minas

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