Quando se fala em tomar medidas legais para combater a criminalidade,
inevitavelmente vem à tona a discussão sobre a redução da maioridade penal,
a idade em que, diante da lei, um jovem passa a responder inteiramente por
seus atos, como os cidadãos adultos.
A morte do menino João Hélio, de 6 anos,
arrastado por um carro depois de um assalto no Rio de Janeiro, reacendeu o
debate sobre a redução da maioridade penal no país. Como em outros crimes
violentos, menores de idade tiveram papel ativo no brutal crime - mas
poderão ficar no máximo 3 anos presos.
Doze projetos de lei e 27 emendas para
alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tramitam na Câmara dos
Deputados. Um grupo de deputados quer apresentar um projeto condensando
todas essas propostas. A idéia é propor penas mais severas para os crimes
considerados leves com internação de até três anos, os graves com tempo
mínimo de internação de três anos e os hediondos com o mínimo de cinco anos.
O tempo de pena será reavaliado a cada três anos e poderá ser reduzido ou
ampliado, de acordo com o comportamento do menor infrator.
Saiba quais são os principais argumentos
dos defensores e dos críticos da medida - e como a mudança na lei poderia
ser realizada.
O Ouro Fino Online realizou do dia 16 a
31 maio, uma enquete sobre o assunto. Participaram 133 internautas, dos
quais
A maioridade penal fixada em 18 anos é
definida pelo artigo 228 da Constituição. É a idade em que, diante da lei,
um jovem passa a responder inteiramente por seus atos, como cidadão adulto.
É a idade-limite para que alguém responda na Justiça de acordo com o Código
Penal. Um menor é julgado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O que diz a legislação brasileira sobre
infrações de quem não atingiu a maioridade penal?
Pela legislação brasileira, um menor
infrator não pode ficar mais de três anos internado em instituição de
reeducação. É uma das questões mais polêmicas a respeito da maioridade
penal. As penalidades previstas são chamadas de “medidas socioeducativas”.
Apenas crianças até 12 anos são inimputáveis, ou seja, não podem ser
julgadas ou punidas pelo Estado. De 12 a 17 anos, o jovem infrator será
levado a julgamento numa Vara da Infância e da Juventude e poderá receber
punições como advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de
serviços à comunidade, liberdade assistida, inserção em regime de
semiliberdade ou internação em estabelecimento educacional. Não poderá ser
encaminhado ao sistema penitenciário.
Como é a legislação brasileira em relação a outros países?
A legislação brasileira sobre a
maioridade penal entende que o menor deve receber tratamento diferenciado
daquele aplicado ao adulto. Estabelece que o menor de 18 anos não possui
desenvolvimento mental completo para compreender o caráter ilícito de seus
atos. Adota o sistema biológico, em que é considerada somente a idade do
jovem, independentemente de sua capacidade psíquica. Em países como Estados
Unidos e Inglaterra não existe idade mínima para a aplicação de penas.
Nesses países são levadas em conta a índole do criminoso, tenha a idade que
tiver, e sua consciência a respeito da gravidade do ato que cometeu. Em
Portugal e na Argentina, o jovem atinge a maioridade penal aos 16 anos. Na
Alemanha, a idade-limite é 14 anos e na Índia, 7 anos.
Quais os argumentos para reduzir a maioridade penal?
Os que defendem a redução da maioridade
penal acreditam que os adolescentes infratores não recebem a punição devida.
Para eles, o Estatuto da Criança e do Adolescente é muito tolerante com os
infratores e não intimida os que pretendem transgredir a lei. Eles
argumentam que se a legislação eleitoral considera que jovem de 16 anos com
discernimento para votar, ele deve ter também tem idade suficiente para
responder diante da Justiça por seus crimes.
Quais mudanças são as propostas em relação à maioridade penal?
Discute-se a redução da idade da
responsabilidade criminal para o jovem. A maioria fala em 16 anos, mas há
quem proponha até 12 anos como idade-limite. Propõe-se também punições mais
severas aos infratores, que só poderiam deixar as instituições onde estão
internados quando estivessem realmente “ressocializados”. O tempo máximo de
permanência de menores infratores em instituições não seria três anos, como
determina hoje a legislação, mas até dez anos. Fala-se em reduzir a
maioridade penal somente quando o caso envolver crime hediondo e também em
imputabilidade penal quando o menor apresentar "idade psicológica" igual ou
superior a 18 anos.
O que dizem os que são contra a redução da maioridade penal?
Os que combatem as mudanças na legislação
para reduzir a maioridade penal acreditam que ela não traria resultados na
diminuição da violência e só acentuaria a exclusão de parte da população.
Como alternativa, eles propõem melhorar o sistema socioeducativo dos
infratores, investir em educação de uma forma ampla e também mudar a forma
de julgamento de menores muito violentos. Alguns defendem mudanças no
Estatuto da Criança e do Adolescente para estabelecer regras mais rígidas.
Outros dizem que já faria diferença a aplicação adequada da legislação
vigente
Quem é contra a redução da maioridade penal?
Representantes da Igreja Católica e do
Poder Judiciário combatem a redução da maioridade penal. Para a presidente
do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Ellen Gracie, a melhor solução
seria ter uma “justiça penal mais ágil e rápida”. O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva diz que o Estado “não pode agir emocionalmente”, pressionado
pela indignação provocada por crimes bárbaros. Karina Sposato, diretora do
Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção e Tratamento
da Delinqüência (Ilanud), diz que o país não deveria “neutralizar” parte da
população e sim procurar “gerir um sistema onde as pessoas possam superar a
delinqüência”. Tanto o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil,
Cezar Britto, como o presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia,
afirmam que reduzir a maioridade penal não seria uma solução para a
violência.
Quem se manifestou a favor da redução da maioridade penal?
Os quatro governadores da região Sudeste
- José Serra (PSDB-SP), Sérgio Cabral Filho (PMDB-RJ), Aécio Neves (PSDB-MG)
e Paulo Hartung (PMDB-ES) propõem ao Congresso Nacional alterar a legislação
para reduzir a maioridade penal. Eles querem também aumentar o prazo de
detenção do infrator para até dez anos. Além dos governadores, vários
deputados e senadores querem colocar em votação propostas de redução da
maioridade.
Quais são os trâmites legais para reduzir a maioridade penal?
Depois de ser discutida pelo Senado, a
proposta de emenda constitucional (PEC) deve ir a plenário para votação em
dois turnos. Na seqüência, a proposta tem de ser votada pela Câmara dos
Deputados para transformar-se em lei.
Que propostas sobre maioridade penal serão avaliadas pelo Congresso
Nacional?
Das seis propostas de redução da
maioridade penal que a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do
Senado avalia, quatro reduzem a maioridade de 18 para 16 anos, e uma para 13
anos, em caso de crimes hediondos. Há ainda uma proposta de emenda
constitucional (PEC), do senador Papaléo Paes (PSDB-AP) que determina a
imputabilidade penal quando o menor apresentar "idade psicológica" igual ou
superior a 18 anos.
Quando a Câmara dos Deputados votará as propostas de redução de maioridade
penal?
Não há prazo definido. O presidente da
Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), não quis incluir o assunto
entre as primeiras medidas do chamado “pacote da segurança”. O que tem
ocorrido é que em períodos de comoção e mobilização da opinião pública o
assunto ganha visibilidade e várias propostas chegam ao Congresso. Passada a
motivação inicial, os projetos caem no esquecimento. A proposta para redução
da maioridade está parada no Congresso desde 1999. Desde 2000, esta é a
quarta vez que um “pacote de segurança” é proposto. O último “esforço
concentrado” foi em junho de 2006, após os ataques do PCC em São Paulo,
quando o Senado aprovou 13 projetos de endurecimento da legislação penal,
que não incluíam a discussão sobre a maioridade. Em 2003, após a morte de
dois juizes, houve uma “semana da segurança”. Em 2000, depois de um
seqüestrador de um ônibus ser morto ao lado de uma refém, a Câmara e o
Senado criaram uma comissão mista para discutir o endurecimento das leis.
Não houve votação originada desta comissão.