Em busca desses ainda ostentadores do
título de “oficial”, como eram chamados os profissionais que lidavam com a
alfaiataria, o Sr. Francisco (Chico) Ceccon, no ramo a mais de 67 anos,
começou a conhecer a profissão ainda garoto observando seu pai, que também
era alfaiate, a trabalhar. Despertando-lhe o interesse logo cedo pela arte
que ainda mantém viva.
De acordo com ele, seu primeiro contato
com a alfaiataria foi aos oito anos de idade; mas como era ainda muito
jovem, não decidiu que iria começar a trabalhar. Com doze anos resolveu
apreender a arte e ingressou em uma alfaiataria que havia na época. Vendo
que no ofício demonstrava formidável desempenho decidiu que seria nele que
se tornaria um profissional, que é até hoje. Tomado gosto pela profissão,
apesar de dizer que não fora fácil se tornar um mestre; pois este é um ramo
no qual deve-se demonstrar visível capacidade e competência, Francisco então
começou a demonstrar que fora para aquele serviço que havia nascido.
Destacando-se entre seus companheiros, no ateliê de alfaiates, recebeu uma
proposta de ir trabalhar em uma oficina maior, de propriedade do Sr. Ângelo
Pennachi, com outros vinte “oficiais”; onde aperfeiçoou-se como alfaiate
aprendendo com um de seus companheiros de trabalho os detalhes e domínios da
arte. Chegando a cumprir uma carga horária de até 18 horas diárias; pois
atendia também às encomendas que lhes eram feitas além das que tinha de
fazer na alfaiataria. Mas nunca queixando-se de trabalhar, pois de acordo
com ele; esse era um serviço o qual fazia com gosto. Tomando cada vez mais
amor pela profissão - de acordo com o próprio, chegou até a receber uma
proposta de ir trabalhar em São Paulo. Oferta de trabalho que recusou por
dizer que não sairia de Ouro Fino, pois é aqui até hoje que é conhecido e
querido por muitos e tem a cidade como um lugar no qual sente gosto de
viver.
Após tornar-se já um competente alfaiate,
por volta de 1970 - época em que Ouro Fino chegara a ter cerca de vinte
alfaiatarias -, Chico Ceccon, decidiu que iria começar a trabalhar por conta
própria; abrindo um ateliê de sua propriedade e tendo sobre sua chefia mais
cinco “oficiais”.
Ele analisa, que devido às mudanças dos
tempos e dos costumes das pessoas, a procura por serviços de alfaiates foi
diminuindo e a clientela passando a optar pelas “roupas feitas”. Para Ceccon,
muitas das vezes a baixa qualidade apresentada nesses produtos acaba por
desvalorizar ao profissional de seu ramo; devido às pessoas acharem que a
maioria dos artigos semelhantes apresentariam os mesmos defeitos e falhas.
- Geralmente essas confecções de baixo
nível encolhem na hora da lavagem; e a culpa então recai sobre o
profissional que fora contratado para lava-lo, mas poucos sabem que esse
efeito é devido a má qualidade empregada em sua manufatura -, diz Ceccon.
Em sua trajetória, segundo ele, sempre
atendeu a uma vasta clientela; dos mais pobres aos mais ricos, tratando e
servindo a todos sempre da mesma e da melhor forma possível. Figurando entre
seus clientes, também pessoas de renome e inclusive de outras cidade; como o
Dr. Luis Calderari, do Rio de Janeiro e Agrícola Serra, ex-membro do
Ministério da Agricultura; entre outros. Afirmando, que devido aos jovens de
hoje não ligarem muito para esse tipo de roupa com o qual lida; a demanda
caiu muito.
- Graças a Deus não me chega a faltar
serviço, pois sempre faço sempre tudo com amor e carinho -, ressalta.
Ceccon sempre procura chegar o mais
próximo possível da perfeição; corrigindo a defeitos e adaptando a roupa
para o melhor caimento em seu “freguês”. Além de trabalhar com a manufatura
de ternos, ele também realiza concertos e ajustes em todos os tipos de
roupas e trajes.
Outro alfaiate na cidade que ainda mantém
vivo o ofício é o Sr. Orfeu Xavier da Cruz, seu interesse pela profissão foi
despertado logo cedo, quando morava com sua família em um sítio em Borda da
Mata, vendo sua mãe costurar roupas para algumas encomendas que lhe eram
feitas pelos vizinhos e moradores próximos.
Interessado pela arte, aos treze anos ele
começou a ser aprendiz em uma alfaiataria e desenvolvendo-se na profissão
aos vinte inicia o trabalho profissionalmente.
No ano de 1950, ele erradicou-se em Ouro
Fino onde trabalha até hoje, enfrentando a doença de Parkinson.
Orfeu trabalha já a muitos anos
juntamente com o Orestes Loyola de Almeida, 82 anos, em um pequeno
estabelecimento à Rua Treze de Maio, onde até hoje confecciona e realiza
reparos em roupas, tendo inclusive trabalhado com Ceccon no passado.
Trabalhando com gosto por ser alfaiate, e
com dedicação por seu serviço; hoje aos 57 anos como “oficial” ele diz que
realmente houve uma grande queda na procura pelos serviços da alfaiataria,
mas que gostaria de poder ensinar este ofício, que está quase desaparecendo
por completo, a jovens que não têm uma profissão. Pois afirma que este é um
bom trabalho; exceto devido a queda na demanda de encomendas e pedidos, mas
que para aqueles que gostam ou tenham o interesse; sempre será uma arte.
Pois afirma que foi por escolha própria que adentrou ao setor da
alfaiataria, não se arrependendo jamais de até hoje exercer ao seu ofício
com o qual criara seus filhos e sua família.
Seu amigo Orestes, começou a trabalhar
também logo cedo. Aos 15 anos ele já estava servindo como aprendiz em uma
alfaiataria. Tendo facilidade em aprender a profissão, pois de acordo com
ele esse é um ofício para o qual nascera com o dom, aos 17 anos já estava
aceitando encomendas e confeccionando aos ternos dos clientes do
estabelecimento onde trabalhava.
Hoje, já com 67 anos como alfaiate,
Oréstes nos disse que ama a sua profissão; sentido-se realizado em exerce-la
já por todos esses anos com amor e dedicação a seu serviço.
Finalizando, que gostaria muito também de
poder ensinar o seu ofício a jovens que tiverem o interesse em aprende-lo.
Pois completa:
- Que se Deus dá ao homem a ciência ou a
sabedoria, é para que ele possa transmiti-la e engrandecer ainda mais o seu
conhecimento. Pois a melhor forma de aprender a coisas novas, é ensinando as
que já se sabe.