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Alfaiataria: uma arte por amor a profissão

(Jornal da Cidade - Inserida em 30/04/2007 - (17h30)

Requisitados em outrora por àqueles que gostavam de se vestir bem os alfaiates ainda resistem ao tempo

Até meados do século passado, os alfaiates e suas oficinas eram procurados por todas as pessoas e haviam uma grande gama de profissionais que exerciam a profissão da alfaiataria.

Com o advindo da expansão industrial no país nos 40 e 50, pós a Revolução Constitucionalista de 32, foram surgindo as grandes empresas de confecções.

Trabalho em série e poder de compra maior ocasionaram preços mais competitivos. As roupas deixaram de serem produzidas sob encomenda e passaram a ser vendidas em lojas, os costumes foram se modificando e se adaptando ao crescente mercado das vestimentas.

 
 Os garbosos ternos foram dando espaços aosjeans e as camisetas e as pessoas deixaram de recorrer  

Ceccon, a mais de 60 anos no oficio, gostaria de ensinar a profissão aos jovens

às oficinas de costura e começaram a comprar as, como foram chamadas na época, “roupas feitas”. Ao invés de terem que ir “tirar” medidas e esperarem a confecção do traje que desejavam; podiam ir às lojas e escolherem o que lhes melhor caísse e estava ali criado a pronta entrega.

Desde então ocorre uma reviravolta no cenário de vestimentas, e aqueles que antes eram responsáveis pelo seu fornecimento perderam seu espaço para as grandes evoluções dos teares e manufaturas de tecidos e roupas. Foram surgindo as marcas; a propaganda dessas. O povo preferiu mais uma vez render-se às novidades de mercado e aderir aos trajes “produzidos em linha”, do que encomendar e esperar que o alfaiate fizesse o seu trabalho.

Mas, apesar de tudo, ainda existem hoje em dia; em Ouro Fino, três pessoas que exercem a profissão artística da alfaiataria. Profissionais estes últimos remanescentes de um segmento econômico que já está quase extinto.

 

Resistindo ao tempo eles são os verdadeiros artesãos da confecção

 

Fiéis ao ofício até hoje eles construíram suas vidas, pode-se dizer no ponto a ponto. Hoje, em Ouro Fino, eles são em número de três, mas já foram muitos. Francisco Ceccon, Orfeu Xavier da Cruz e Orestes Loyola de Almeida, já exercem sua profissão na cidade a cerca de 60 anos e continuam a trabalhar com o dom de manusear trajes e peças de tecidos dos mais variados.

Para conhecer, e poder relatar ainda melhor sobre essa “arte profissional” que ainda está viva graças a esses persistentes trabalhadores, o Jornal da Cidade procurou-os para reportar o que dizem sobre

Orfeu (ao fundo) e Orestes mais de 60 anos companheiros de trabalho

  o trabalho que mantém vivo pelo passar de anos e épocas.

Em busca desses ainda ostentadores do título de “oficial”, como eram chamados os profissionais que lidavam com a alfaiataria, o Sr. Francisco (Chico) Ceccon, no ramo a mais de 67 anos, começou a conhecer a profissão ainda garoto observando seu pai, que também era alfaiate, a trabalhar. Despertando-lhe o interesse logo cedo pela arte que ainda mantém viva.

De acordo com ele, seu primeiro contato com a alfaiataria foi aos oito anos de idade; mas como era ainda muito jovem, não decidiu que iria começar a trabalhar. Com doze anos resolveu apreender a arte e ingressou em uma alfaiataria que havia na época. Vendo que no ofício demonstrava formidável desempenho decidiu que seria nele que se tornaria um profissional, que é até hoje. Tomado gosto pela profissão, apesar de dizer que não fora fácil se tornar um mestre; pois este é um ramo no qual deve-se demonstrar visível capacidade e competência, Francisco então começou a demonstrar que fora para aquele serviço que havia nascido. Destacando-se entre seus companheiros, no ateliê de alfaiates, recebeu uma proposta de ir trabalhar em uma oficina maior, de propriedade do Sr. Ângelo Pennachi, com outros vinte “oficiais”; onde aperfeiçoou-se como alfaiate aprendendo com um de seus companheiros de trabalho os detalhes e domínios da arte. Chegando a cumprir uma carga horária de até 18 horas diárias; pois atendia também às encomendas que lhes eram feitas além das que tinha de fazer na alfaiataria. Mas nunca queixando-se de trabalhar, pois de acordo com ele; esse era um serviço o qual fazia com gosto. Tomando cada vez mais amor pela profissão - de acordo com o próprio, chegou até a receber uma proposta de ir trabalhar em São Paulo. Oferta de trabalho que recusou por dizer que não sairia de Ouro Fino, pois é aqui até hoje que é conhecido e querido por muitos e tem a cidade como um lugar no qual sente gosto de viver.

Após tornar-se já um competente alfaiate, por volta de 1970 - época em que Ouro Fino chegara a ter cerca de vinte alfaiatarias -, Chico Ceccon, decidiu que iria começar a trabalhar por conta própria; abrindo um ateliê de sua propriedade e tendo sobre sua chefia mais cinco “oficiais”.

Ele analisa, que devido às mudanças dos tempos e dos costumes das pessoas, a procura por serviços de alfaiates foi diminuindo e a clientela passando a optar pelas “roupas feitas”. Para Ceccon, muitas das vezes a baixa qualidade apresentada nesses produtos acaba por desvalorizar ao profissional de seu ramo; devido às pessoas acharem que a maioria dos artigos semelhantes apresentariam os mesmos defeitos e falhas.

- Geralmente essas confecções de baixo nível encolhem na hora da lavagem; e a culpa então recai sobre o profissional que fora contratado para lava-lo, mas poucos sabem que esse efeito é devido a má qualidade empregada em sua manufatura -, diz Ceccon.

Em sua trajetória, segundo ele, sempre atendeu a uma vasta clientela; dos mais pobres aos mais ricos, tratando e servindo a todos sempre da mesma e da melhor forma possível. Figurando entre seus clientes, também pessoas de renome e inclusive de outras cidade; como o Dr. Luis Calderari, do Rio de Janeiro e Agrícola Serra, ex-membro do Ministério da Agricultura; entre outros. Afirmando, que devido aos jovens de hoje não ligarem muito para esse tipo de roupa com o qual lida; a demanda caiu muito.

- Graças a Deus não me chega a faltar serviço, pois sempre faço sempre tudo com amor e carinho -, ressalta.

Ceccon sempre procura chegar o mais próximo possível da perfeição; corrigindo a defeitos e adaptando a roupa para o melhor caimento em seu “freguês”. Além de trabalhar com a manufatura de ternos, ele também realiza concertos e ajustes em todos os tipos de roupas e trajes.

Outro alfaiate na cidade que ainda mantém vivo o ofício é o Sr. Orfeu Xavier da Cruz, seu interesse pela profissão foi despertado logo cedo, quando morava com sua família em um sítio em Borda da Mata, vendo sua mãe costurar roupas para algumas encomendas que lhe eram feitas pelos vizinhos e moradores próximos.

Interessado pela arte, aos treze anos ele começou a ser aprendiz em uma alfaiataria e desenvolvendo-se na profissão aos vinte inicia o trabalho profissionalmente.

No ano de 1950, ele erradicou-se em Ouro Fino onde trabalha até hoje, enfrentando a doença de Parkinson.

Orfeu trabalha já a muitos anos juntamente com o Orestes Loyola de Almeida, 82 anos, em um pequeno estabelecimento à Rua Treze de Maio, onde até hoje confecciona e realiza reparos em roupas, tendo inclusive trabalhado com Ceccon no passado.

Trabalhando com gosto por ser alfaiate, e com dedicação por seu serviço; hoje aos 57 anos como “oficial” ele diz que realmente houve uma grande queda na procura pelos serviços da alfaiataria, mas que gostaria de poder ensinar este ofício, que está quase desaparecendo por completo, a jovens que não têm uma profissão. Pois afirma que este é um bom trabalho; exceto devido a queda na demanda de encomendas e pedidos, mas que para aqueles que gostam ou tenham o interesse; sempre será uma arte. Pois afirma que foi por escolha própria que adentrou ao setor da alfaiataria, não se arrependendo jamais de até hoje exercer ao seu ofício com o qual criara seus filhos e sua família.

Seu amigo Orestes, começou a trabalhar também logo cedo. Aos 15 anos ele já estava servindo como aprendiz em uma alfaiataria. Tendo facilidade em aprender a profissão, pois de acordo com ele esse é um ofício para o qual nascera com o dom, aos 17 anos já estava aceitando encomendas e confeccionando aos ternos dos clientes do estabelecimento onde trabalhava.

Hoje, já com 67 anos como alfaiate, Oréstes nos disse que ama a sua profissão; sentido-se realizado em exerce-la já por todos esses anos com amor e dedicação a seu serviço.

Finalizando, que gostaria muito também de poder ensinar o seu ofício a jovens que tiverem o interesse em aprende-lo. Pois completa:

- Que se Deus dá ao homem a ciência ou a sabedoria, é para que ele possa transmiti-la e engrandecer ainda mais o seu conhecimento. Pois a melhor forma de aprender a coisas novas, é ensinando as que já se sabe.

Oficinas de costuras uma nova modalidade que surge

Mesmo com a profissão de alfaiate sendo cada vez menos solicitada, ainda é grande a procura por prestadores de serviços de costura. Arrumar uma barra de calça, pregar um zíper, recortar, concertar, ajustar e etc. São os mais requisitados para as profissionais que trabalham nesse ramo.

Na oficina de costura de propriedade de Cleusa Gonçalves Pereira, trabalham juntamente com ela mais três outras profissionais especializadas em reparos em geral, não deixando também de aceitarem encomendas para a manufatura de roupas.
Cleusa diz que já trabalha como costureira a mais de 40 anos, sendo que em sua oficina, que antes era situada em outro local, a aproximadamente 4 anos.

 
Ela nos disse também que o sistema com que elatrabalha junto a suas companheiras é semelhante  

Oficina de costura surgem para suprir a demanda de pequenos reparos

 ao de uma cooperativa. Ao invés de terem um salário fixo, o lucro é divido entre elas no final de cada mês.

Cleusa Gonçalves relatou também, que já a anos ela almejava a criação de um cooper similar em alguns bairros rurais de Ouro Fino, dando também cursos gratuitos às moradoras da comunidade, mas que devido a falta de interesse por parte das costureiras o projeto não vingou. Inclusive chegando até a receber a proposta de fornecimento de maquinaria para a cooperativa de uma fábrica do município. Sempre gostando de trabalhar e desenvolver a projetos que pudessem ajudar a comunidade.

De acordo com ela, essa é uma profissão a qual também exerce com amor, pois gosta do que faz. E que as pessoas deviam se organizar e ajudarem-se para crescerem, pois é preciso iniciativa por parte dos cidadãos de Ouro Fino, ao invés de apenas reclamarem da Administração e esperarem que os políticos façam alguma coisa pelo povo. Pois para ela, o povo tem o dever de lutar por suas necessidades e conquistas.

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